“A reforma de Conjo radicalizou as mudanças na psiquiatria dos últimos anos do Franquismo”

Inaugurado em 1885 polo Cardeal Payá, passou de maos da Igreja à Deputaçom em 1969. Numha tentativa de lavar a imagem por parte dos seus gestores franquistas, começou-se umha reforma em 1973 que terminou por ser um processo revolucionário que andou os primeiros chanços do que seriam importantes mudanças na vida de pessoas usuárias e trabalhadores do centro. Neste documentário a história de um lugar, o Psiquiátrico de Conjo, entronca a história de um bairro e a história de umha cidade, com a história dos movimentos sociais e políticos do tardofranquismo. Quer dizer, o que afinal é a história de um povo. Filme feito polos autores, sem mediar nenhumha empresa produtora, graças a umhas ajudas institucionais, as Ajudas ao Talento, que estám na corda frouxa.

Como surgiu o documentário?

Pablo Cayuela: Surgiu nas jornadas que houvo no mês de abril do ano passado, intituladas A memória silenciada, que se desenvolvêrom no bairro compostelano de Conjo. Ali falárom Emilio González e Antón Seoane, psiquiatras de Conjo, sobre o processo de reforma do psiquiátrico nos anos 70. Foi Maria do Cebreiro, co-guionista do filme, quem assistiu, e trouxo a ideia de fazer algo. Quadrou 15 dias antes de terminar o prazo para pedir as ajudas da Agadic, e decidimos apresentar um projeto. O que ficou finalmente nom sei se se parece muito à ideia inicial, que era simplesmente pensar num espaço, o Psiquiátrico de Conjo, do qual nom sabíamos nada, e em que se produzírom, a nível microscópico, muitos factos políticos, que também existírom a nível estatal. Começamos a olhar histórias que agachava o lugar, e tentamos registá-lo todo, nom de umha maneira narrativa, senom através de determinados espaços: salas em que se cruzavam os homens e as mulheres, que os tinham separados, para terem sexo; ou as salas onde se faziam os electroshocks… Trata-se de umha tentativa de conhecer a história de algo que foi e que já nom é,a partir do próprio espaço.

Foi um longo processo de documentaçom… Como reunistes o material (vídeos, imagens, recortes de jornal, cartas…) ?

Xan G. Viñas: Primeiro houvo umha toma de contacto com os documentos e com os relatos, e depois começamos a ir a Conjo, a conhecer o espaço, enquanto continuávamos a ler… Foi um processo de indagaçom, quase como um processo de investigaçom plural: nom foi umha estrutura de filmagem clássica, senom que se misturárom os processos.
P.C.: Em Novembro de 2011, quando em teoria já tínhamos que ter terminado, conhecemos a Chema Ferreiro, quem foi psiquiatra em Conjo e albaceia de toda a documentaçom guardada polos médicos que participárom da reforma. Ele tinha umha mala, de que já nos tinham falado, com recortes de imprensa desde o 72 até o 76-77 e alguns dos 80. Entre eles, a carta de despedimento de Ramom Muntxaraz, que é do 83. Era tanto, e tam valioso, que nom sabíamos como representá-lo na escala visual.
X.G.: Se quadra todo esse material fijo-nos ver umha realidade: que era impossível fazer nenhum tipo de relato histórico acessível para o espetador. Mas, de algumha maneira serviu-nos de guiom mental que nos permitira chegar a algo completo. A quantidade de relatos, de histórias, de documentos que bota para fora umha instituiçom como esta é imensa, daria para vinte filmes. Nom queríamos provocar um sentido concreto sobre esses documentos, senom tentar que cada um fale por si, junto com a voz em off, que poderia ser a nossa visom, mas que nom é nada omnisciente, nom quer dar umha imagem completista sobre o que ali aconteceu, senom deixar que seja o espectador quem valorize.

Há umhas imagens em que saem os usuários do centro nas aulas de Laborterapia que som mui duras, sobretodo contra a instituiçom e a utilizaçom económica que fai das pessoas que ali residem…

X.G.: Som de um programa de TVE, de 1983, intitulado Galicia Xa, e coordenado na altura por Enrique Banet. Figérom umha peça, locutada por Tareixa Navaza, que chama a atençom pola sua veemência e por como era a televisom naquela altura, com umha locuçom absolutamente crítica, que hoje seria inviável. Suponho que hoje em dia este tipo de imagens seriam absolutamente propagandísticas do que ali acontece.
P.C.: Son imagens que propujo Muntxaraz, para estabelecer um debate sobre a situaçom das pessoas no psiquiátrico -o programa era sobre psiquiatria na Galiza-, e posteriormente, penso que apenas uns dias após a emissom do programa, foi despedido. Depois tenhem que readmiti-lo e cria-se jurisprudência sobre o direito a criticar a própria empresa.

Como se desenvolveu a reforma em Conjo? Porque se produzírom ali as condiçons para fazer tais mudanças em pleno tardofranquismo?

P.C.: Juntam-se muitas cousas. Primeiro, o momento histórico: havia greves em toda parte, de entre elas as dos MIR, que fôrom massivas. Para além disto, antes da de Conjo, houvera umha reforma em Oviedo, no 69, após a qual fôrom despedidas umhas cem pessoas. Muita desta gente foi parar a Conjo, com o objetivo expresso de reformar a instituiçom por parte do poder, já que a maneira de dirigir o psiquiátrico estava a ser mui criticada. A reforma começou-se como um processo do franquismo por lavar a cara e trouxérom esta gente. Porém, houvo muitos choques culturais entre os médicos de fora e os de aqui, segundo contou Emilio González. Quando a reforma botou a andar, coincidiu que em Compostela havia gente mais ideologizada, e todo esse ambiente estourou em Conjo, onde se aproveitou o processo de mudança para radicalizá-lo mais. Houvo enfrontamentos com os gerentes, já que a reforma inicial controlada chocou com o que realmente queriam os médicos, e com as reivindidaçons dos pacientes. Houvo conflito e chegárom os despedimentos.
X.G.: Esse processo de democratizaçom tam radical acabou por se voltar em contra da própria reforma pola esquerda, digamos. Essa busca de umha espécie de horizontalidade nas relaçons dentro do centro também queriam levá-la à ausência de um classismo entre os próprios médicos e isso era algo que nom queria ser assumido por parte de alguns. Naquela altura, houvo enfrontamentos entre os primeiros detentores da reforma e toda esta série de médicos que fôrom despedidos por reclamar que todo isto se levasse a umha democracia mais real dentro da instituiçom.
P.C.: Outro ponto importante foi que a imprensa se posicionou em contra do que estava a acontecer em Conjo, sobretodo El Correo Gallego. No 74, El Correo publicou um artigo começando com umha campanha de desprestígio de Conjo, falando do que consideravam um processo imoral, porque segundo contavam no jornal, os pacientes tinham relaçons sexuais entre eles e com os médicos. Estavam a receitar preservativos, o que estava proibido, e havia mulheres grávidas, sempre segundo este jornal. Isto radicalizou a cousa bastante, por um lado e por outro.

Como acabou a cousa?

X.G.: Acabou cada um polo seu lado, polo que sabemos. Muita gente alcançou certo renome no campo da psiquiatria ou noutros ámbitos, mas de maneira mui disgregada. Polo que conta Emilio, alguns dos participantes fôrom para Andalucia ou Astúrias, onde a reforma tivo maior sucesso. Mas na Galiza, a contra-reforma de Conjo em princípio terminou com o movimento, com umha repressom bastante grande.
P.C.: Foi o primeiro arranque, ou o segundo, se se considera o de Oviedo, de umhas mudanças que posteriormente terminárom na elaboraçom da Lei Geral de Sanidade do 86. Antes de que morresse Franco, se aprovasse a Constituiçom, se inventasse a Transiçom e se tentasse reformular todo o acontecido no Franquismo.

■ Entrevista de Antía Rodríguez publicada no Novas da Galiza nº 118 (15 de setembro – 15 de outubro de 2012). Podes descargar aquí o pdf orixinal.